3 de ago de 2012

RELIGIOSOS NO PODER

Houve e há, na História, casos de política a serviço da fé e de fé a serviço da política. O caso Henrique VIII é um dos muitos que ilustram esta relação espúria. Não é bom quando a religião manda no rei e não é bom quando o rei manda na religião. Inspirar é uma coisa: dominar é outra.

De início sob orientação do arcebispo William Warham as coisas iam bem. Após aliança com a França deu sua irmã Mary em casamento a Louis XII. Catarina de Aragão sua esposa lhe deu uma filha a princesa Mary. Mas não lhe dava filho homem. Cogitou trazer seu filho bastardo Henry, duque de Richmond e Sommerset para casar com sua filha, a princesa Mary, filha de Catarina. E daí, se Igreja fosse contra? Não seria nada incomum naqueles tempos de interesses políticos acima da fé. Em Roma não tinha reinado um papa Bórgia, Alexandre VI de péssima reputação? E não fora o mesmo Papa Bórgia quem anulara o casamento de Luis XII com Joana de França em troca de aliança política? Se fora possível com Luiz XII, por que não com ele?

Apaixonou-se por Ana Bolena, mas, para não se casar com uma amante quis torná-la rainha. Para isso teria que se divorciar de Catarina de Aragão. Seu esmoler do Reino, Thomas Wolsey garantiu que conseguiria o divórcio em Roma, como fora o caso de Louis XII da França com Margaret da Escócia.  O cardeal Lorenzo Campeggio emissário de Roma, até que tentou, mas não julgou possível. Havia ligações políticas mais do que morais no meio. Casamentos naqueles dias eram mais do que amor: eram alianças entre reinos. Wolsey foi exonerado.

Henrique VII a que com livros e gestos políticos defendera o papado contra Lutero em 1521 recebera o título de “Defensor da Fé Católica”.  Quis um favor em troca. Agora seria a vez de o Papa lhe permitir casar de novo para ter um herdeiro homem.

Voltou-se para seu novo chanceler Thomas Cromwell´s. Este foi impiedoso. Como Thomas Morus chanceler do Reino não cedera Morus foi morto. Cromwell continuou a represália e começou a suprimir mosteiros, conventos, ordens, privilégios da Santa Sé na Inglaterra e apossar-se dos seus bens. Matou o bispo Fisher e inúmeros monges. Deixou claro que não hesitaria em matar para conseguir seus objetivos.  

O rei, antes defensor da Fé Católica, fundou sua própria igreja católica não romana. Divorciou-se de Catarina de Aragão e casou-se com Ana Bolena que também não lhe deu filhos homens. Condenou-a morte por adultério em l536. E ela entrara para a igreja do rei... As coisas ali corriam rápido. Esposa nova morta, casou-se com Jane Seymour que no ano seguinte lhe deu um filho homem e morreu logo a seguir, em 1537.

O caso não era de heresia, mas de disciplina. Não se tornou protestante. Continuou católico, mas anti-romano. Cromwell pisou na bola e fez diplomacia errada e foi decapitado em l540.

Agora o rei era suprema autoridade política e religiosa da Inglaterra e da Irlanda. Queria também a Escócia. Conseguiu.  O rei da Escócia morreu em batalha e Henrique VIII deu um jeito de casar seu filho Eduardo VI com Mary Stuart filha do rei morto. Outras alianças o levaram na direção dos luteranos e sua igreja assumiu alguns dogmas católicos e outros luteranos. Mais mortes se seguiram. Morreu em Londres em l547.

Fundou a Igreja que quis, casou-se com quem quis, matou a quem quis, apossou-se dos países que quis e, enfermo, morreu como não quis aos 56 anos de idade.   

Seu chanceler Thomas Morus é hoje visto como santo católico, por não ter cedido ao poder político do rei e não aceitar aprovar seu casamento.

Thomas Cromwell aceitou fazer o que o rei queria. Obrigou o Parlamento a declarar que o rei era o supremo chefe do reino e da Igreja, confiscou os bens da Igreja Romana, matou e mandou matar quem se opunha. Puxou a Igreja do rei para o lado luterano. Levou o rei a casar-se com a quarta mulher Ana de Cleves que o rei odiava.  Acabou ele mesmo executado em l540 como traidor e herege. Seu filho Gregório fugiu da política e herdou seus bens.

Os episódios mostram que quando política e religião disputam o poder e um subjuga o outro os dois lados perdem a perspectiva. O rei e fundador de uma igreja nacional manchou muitas vezes sua biografia. O que não significa que os líderes e fiéis da igreja por ele fundada sejam do mesmo quilate. O mau e sanguinário Henrique foi sucedido nestes séculos por muitos bons cristãos que sabem a diferença entre o trono, o púlpito e o altar. Se como rei que matou, confiscou e rompeu com a Igreja para poder se divorciar e ter um herdeiro homem, com eles o diálogo tem sido muito bom. De fato, fé é uma coisa e política é outra. Podem até cooperar e se opor, mas uma não manda na outra. Quem tentou se deu mal!  

Pe. Zezinho, scj