27 de nov de 2011

OS CATÓLICOS E O MILAGRE

Ouvi pelo rádio e respondi pelo rádio porque como católico me senti atingido. A pregadora dizia: __Na Igreja Católica não acontecem milagres. Os católicos oram e oram e lá não acontecem milagres e acentuou que na sua Igreja acontecia milagre após milagre. Ou não sabia ou sabia e resolveu mentir para os seus fiéis. De uma pregadora da fé espera-se honestidade e o mínimo de conhecimento. Nós católicos sabemos e admitimos que Deus opere milagres nas outras Igrejas. Pagãos receberam o Espírito Santo no tempo dos apóstolos, gente que não conhecia a Igreja que nascia. Os apóstolos não negaram. A Igreja reconhece que há santos e há milagres nas Igrejas Ortodoxas; reconhece que há pessoas santas e há milagres nas Igrejas Evangélicas; que o milagre não é próprio nem característico de uma Igreja, mas de Deus; e o seu Espírito sopra onde quer e em quem quer e da maneira que Ele quer; assim como Ele tem misericórdia de quem aprouver de quem tem misericórdia. O milagre é, portanto para o necessitado, passa pelas Igrejas, mas não é propriedade das Igrejas; é decisão de Deus que pode agraciar um ateu, um pagão e um cristão ou membro de qualquer outra religião, porque, na sua infinita misericórdia, Deus não opera milagres somente para os que reconhecem e é por isso que tem acontecido isso que tem acontecido; que missionários católicos ou evangélicos, indo às terras de pagãos, às vezes oram e conseguem o milagre em favor de um pagão fora do seu templo. Isto é prova do quanto Deus é misericordioso para com todos os seus filhos. O milagre não é exclusividade de uma Igreja nem prova que uma Igreja é mais de Cristo. O próprio Jesus diz em Mateus: nos últimos tempos viriam pessoas a fazer prodígios que enganariam até os eleitos e Ele disse que o fato de alguém operar milagre ou ser instrumento de milagre, não garante o céu para este alguém. Ele o diz isto em Mateus 7, 15 – 23, __“Em teu nome profetizamos, em teu nome curamos”, dirão eles que expulsaram demônios em seu nome. E Jesus não os reconhecerá porque faltou o essencial a esses pregadores: o cuidado com os mais pobres e o respeito pelos outros.
Pode considerar-se, pois, uma Igreja de Cristo, mais amada e mais exclusiva porque lá acontecem muitos milagres? É erro craso de Teologia. O próprio Jesus diz que esse não é o sinal de uma Igreja; haverá sinais para todos os seus verdadeiros discípulos, mas alguns sinais serão falsos; o próprio Jesus alerta contra isso no capítulo 24 e no capítulo 25 de Mateus.
Paulo alerta a Timóteo contra os pregadores que dirão coisas agradáveis e que farão marketing excessivo; é só ler o texto com cuidado. Puxar para a própria Igreja a veracidade, só porque lá acontecem milagres, é não entender o essencial da fé cristã. O amor é a prova de que uma Igreja é de Cristo, não os prodígios que acontecem lá dentro. Além do mais, a afirmação da pregadora é desonesta, porque a Igreja Católica, através dos tempos - e nós temos no mínimo dezoito séculos a mais do que a Igreja dela -, tem profusão de milagres para contar, na pessoa de grandes santos e taumaturgos. São centenas os santos católicos que, quando oravam, conseguiam curas e milagres. Houve períodos na Igreja de muito mais multidão e muito mais milagres do que hoje tem acontecido nas Igrejas Pentecostais. E houve também muitos abusos e muitos anúncios de milagres que não aconteceram, coisa que também sucede hoje. Mas a Igreja Católica, na sua doutrina sempre deixou claro: milagres podia ser um sinal da presença de Deus e da misericórdia Dele através dos seus santos, principalmente Maria, mãe de Jesus. Nunca disse, porém que isto é essencial à Fé Católica.
As Igrejas de Cristo não precisam ser Igrejas do milagre para ser Igreja de Cristo, mas precisam ser Igrejas da caridade, do pão repartido para merecerem este título. O milagre é um sinal, mas não é essencial. Essência da fé é a capacidade de conviver em paz com todos os homens, a capacidade de dialogar com Deus e com o próximo e a capacidade de preocupar-se com o próximo. Da essência da fé cristã é adorar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.
Operar milagres não é da essência de uma Igreja Cristã. Uma comunidade pode passar cinqüenta anos sem presenciar nenhum cego a ver, nenhum surdo a ouvir e nenhum coxo a andar e assim mesmo ser uma comunidade do céu, uma comunidade de Jesus Cristo. Nem a presença do milagre a torna mais santa do que as outras comunidades e nem a falta do milagre a torna menos santa. Errou, pois, a pregadora ao dizer que nós católicos não temos milagres em nossos templos e que Deus não está conosco porque não acontecem.
Estamos repletos de santuários onde o milagre acontece quase que diariamente tanto quanto nas Igrejas deles. O que sucede é que hoje fazemos menos alarde e não usamos mais estas provas para dizer que somos melhor Igreja do que as outras. Agradecemos e fica quase sempre entre o fiel e Deus. Quando ele quer dar testemunho é permitido, mas não é esta a essência dos nossos encontros. O padre que colocasse o milagre e o exorcismo como a essência dos encontros dele com os fiéis, não estaria agindo como padre católico. O primeiro acento da Igreja é nos sacramentos, na doutrina e na convivência. O testemunho “milagre” vem em suporte, mas não como razão central dos nossos encontros.
Lourdes, Fátima, Aparecida, Guadalupe e inúmeros outros santuários dedicados aos servos de Jesus como lembrança do que Jesus fez por eles, são testemunhas de inúmeros e freqüentes milagres. Há lugares onde o milagre se renova uma vez por ano, mas nós católicos não sensacionalizamos isto, porque o milagre não é central nos nossos encontros e sim o louvor e a intercessão e a prece pelo outro. Enquanto nós dizemos que Deus opera e faz milagres fora da nossa Igreja, uma missionária de outra igreja vai ao microfone e diz que Deus não faz milagre na Igreja dos outros, só faz na dela.
Talvez aí esteja à diferença entre nós católicos e os outros. Acreditamos que o sol que brilha no telhado da nossa Igreja, também brilha no telhado das outras. Ela, pelo visto, não acredita que Deus opere fora da Igreja dela. Comete o mesmo erro que a Igreja Católica cometeu muito no passado, quando dizíamos que fora de nosso meio não havia salvação. Hoje, depois do Concílio Vaticano, dizemos com clareza, que Deus também está nas outras comunidades de fé, a quem chamamos de irmãs. Deus opera milagres no judaísmo, opera no islamismo e opera em profusão no cristianismo e nas mais diversas Igrejas. No mínimo é má intenção e se não for é má informação, mas é sempre triste saber que algum pregador cristão nega que Deus ame e aja em outras comunidades de fé. É cercear a misericórdia de Deus. É preciso dizer a estes irmãos: Ide e aprendei pois, o que significa: Eu quero a misericórdia e não sacrifícios. ( Mt 9,13) É o caso de lembrar outra vez que o vento da graça, o Espírito sopra onde quer, como quer e em quem ele quer (Jo 3,8).
Deus continua livre para fazer o milagre até porque não há nenhum pregador que o faça, mas intercede em nome de Jesus, coisa que nós católicos já fazemos há séculos; nem por isso negamos que o milagre acontece em outras Igrejas. Espalhe-se essa notícia entre os irmãos católicos e entre os irmãos evangélicos e, sobretudo pentecostais; Deus está operando por toda a parte, não apenas nos nossos templos, porque Ele é mais poderoso e misericordioso do que nós imaginamos. Milagres não vêm do púlpito nem dos microfones do pregador, vem do céu e, se alguém o pedir fora da Igreja num quarto de hospital sozinho, sem a presença de um pregador, pode conseguir e em geral consegue. Nós pregadores não estamos com esta bola toda. “Espalhe-se a notícia!” O milagre existe e acontece até quando não há um pregador por perto!...
PE. ZEZINHO, SCJ