30 de ago de 2012

CANÇÃO DE CATEQUISTA

O mundo é o que é. Nós, que anunciamos Jesus, somos chamados a transformá-lo naquilo que ele deveria ser. Nossa luta é para que, um dia, o mundo não seja mais isto que é e, sim, aquilo que dele se espera.

Fomos batizados, crismados, ordenados e inspirados para interferir no mundo. Jesus orou para estarmos no mundo sem compactuar com o mundo, que é como um barco em alto mar e deve ser conduzido ao porto para onde se destina. Queremos influenciar na sua rota. E faremos isso, sem nos transformarmos em fanáticos ou ditadores, nem abusar da mística do vencedor. Uma igreja não pode achar que vai vencer as outras. O cristianismo não é uma praça de guerra. Muito menos contra irmãos.

Porque o mundo tem alegrias e tristezas, amor e desamor, riso e lágrimas, prazer e dor, vitória e cruz, morte e ressurreição, ódio e vingança, torturas e assassinatos, corrupção e desordem, democracias e ditaduras, desemprego, suicídios, estupros, ganância e violência, fé e fanatismo, choro de pai e mãe, crianças apavoradas, vizinhança assustada, traficantes ameaçando, ladrões em todos os cantos, medo e angústia nas ruas e nas casas, seqüestros e chacinas, ganhos e perdas, verdade e mentira, dominadores e dominados, bandidos e anjos, assassinos frios, pequenos e grandes arruaceiros e invasores, gente desmesuradamente rica e poderosa, paises absurdamente gananciosos, traficantes que movimentam bilhões, armas fatais, terrorismo e banditismo internacional, FMI, ONGS, Multinacionais, MCE, ALCA, MERCOSUL, G-8, Comando Vermelho, PCC, assassinos unidos, policiais-bandidos, bons policiais, assassinados pelas costas, juizes silenciados, fome nas casas, sangue e sexo na televisão, dízimo demais nas igrejas, imposto demais, dívidas demais, promessas mentirosas, anjos demais, fé mágica, gente escondida e rezando, mas sem ir lá como fermento na massa, manipulação da fé, pregadores se auto-promovendo, exploradores da crendice popular, fé confusa, pregadores criando doutrinas esdrúxulas, anjos de plantão no céu, que atendem só se rezarmos determinados salmos e só das 11 as 11, 20 horas, demônios especializados em dor de dente, dor de cabeça, dor de barriga, pregadores inescrupulosos a inventar anjos e demônios, políticos sem ética, escolas sem disciplina...

Porque leio e vejo tudo isso todos os dias, assim que acordo e abro os olhos, eu entendo que não posso me calar, nem ficar numa sacristia de igreja ou num canto de sala, pedindo ao Senhor que me faça feliz, me salve e cuide apenas de mim. Não sou, nem quero ser assim tão especial e importante. Os anciãos, que já deram suas vidas pelo reino, os enfermos que não podem ir lá, têm esse direito. Eu não! Eu tenho que ir e oferecer respostas. Sou catequista e devo tocar na ferida, falar daquele problema e tocar fundo nele. É isso, isso, isso e mais aquilo! Tenho que saber mais do que dizer palavras bonitas e frases decoradas. Os profetas entravam de cheio nos problemas do seu tempo. É por isso que os reis ficavam furiosos com eles e alguns deles foram esfolados vivos e mortos, inclusive Jesus.

Por isso, eu louvo a Deus pelo que ele fez e faz e pode fazer. Mas, logo depois disso, começo a pedir perdão por meus erros e a interceder pelo mundo. E, na hora em que me pedem que suba a um palco e cante, eu canto sobre tudo isso. Sinceramente eu não saberia só louvar, nem só pedir perdão, nem só pedir graças para mim. Eu analiso, exorto, anuncio e denuncio. Se alguém explodiu uma bomba numa creche, pode ter certeza que naquela tarde cantarei um canto contra a violência, outro sobre as crianças e outro sobre as mães que choram. Naquele dia talvez não cante nenhum “eu te louvarei”. E acho que Deus vai entender.

Respeito o pensar dos outros catequistas e cantores. Mas eu canto o dia a dia, os sonhos e as dores do meu povo. Se eu estiver para entrar no carro que me levará para uma tarde de louvor e se souber que uma hora antes alguém seqüestrou alguém naquela cidade, eu mudo o tema e a pregação. Farei uma tarde de súplica, de penitência, de exortação à paz e de intercessão pelos seqüestrados. Minha canção é catequética. Eu canto pensando no céu, mas espiando para os lados. Quero cantar o dia a dia do meu povo. Falo de feto e desafeto, de casais que se separam, de gente que nunca viu um anjo, de gente que não sabe rezar, de bandidos que assustam, de povo que põe fogo em ônibus, de sem terra, de Dona Márcia cuja filhinha amanheceu morta de fome, de trabalhadores sem salário, de sapateiros, de verdureiros e dos meninos da FEBEM.

Muitos de meus irmãos escolheram ser cantores que louvam. Dez de cada dez canções deles falam de louvor. Eu os respeito e aplaudo. Mas não deixo de perguntar por que não cantam sobre outros temas da fé. Sei que os incomodo com isso, mas eles são os catequistas que o povo mais escuta. Então, porque não dão ao povo uma catequese sobre outros temas? Há um catecismo de mais de 800 páginas à espera de ser musicado!  Meu caminho é o de quem repassa o catecismo e o analisa, enquanto tenta influenciar o político e o social do meu povo. Meus modelos? O rei Davi e o diácono Efrem! Os salmos louvam, mas também anunciam, exortam e denunciam. Um dia, pendurarei minha harpa no salgueiro.

Agora, enquanto posso, enquanto ainda me tocam nas rádios e nas missas, e enquanto ainda vem gente me ouvir, eu canto o cotidiano do meu povo. O lobo e o cordeiro ainda não estão bebendo nas mesmas águas. Eu canto para que o lobo fique mais manso e o cordeiro aprenda a se defender.



Pe. Zezinho, scj