5 de mai de 2012

O DRAMA DA INCOERÊNCIA

Inhaerens, adhaerens, e coherens; inerente, aderente e coerente são três palavras que, a princípio, dizem pouco. Mas basta filosofar um pouco sobre elas para perceber que se trata de um conceito abrangente de vida. Morre por dentro quem não vive de inerências, adesões e coerências; ou seja: vive mal quem não estabelece relações sólidas e inerentes na base do quem, com quem, em quem e para quem; vive pior quem jamais se compromete e não adere a nada, trai, muda de parceria, vai com quem oferece mais, escapa da palavra dada e de compromissos que possam impedir seus projetos pessoais de felicidade pessoal; vive mal quem diz uma coisa e vive outra, ou mostra incoerência gritante em temas fundamentais da vida.
Incoerentes somos todos. Nunca um ser humano será capaz de inferir tudo, de aderir em tudo ou de sempre ligar coisa com coisa. Nem tudo será inerente, por isso jamais viveremos a coerência absoluta. Marido e mulher, padres e pastores, papa e bispos, reis e áulicos, governo e oposição, amigos e colegas de trabalho sempre terão suas incoerências. Mas mede-se o grau de pertença, de inerência e o grau de comprometimento, portanto, de adesão pela maioria dos nossos atos. Se na transversalidade de uma vida alguém pode ser visto como coerente em quase tudo, pessoa fiel, pessoa de palavra, que não trai os amigos, que cumpre o que promete, confiável, que não escolhe a si mesmo, que até perde contratos polpudos e oportunidades inadiáveis para outros, mas não para ele que deu a palavra, se não troca de amores, não abandona casamento e filhos, grupo religioso e grupos de trabalho e se o faz, só o faz coberto de razões, razões que não é ele quem determina, então estamos diante de uma vida coerente.
Coerente é o vôo do avião cujo piloto seguiu a rota e não inventou de parar no aeroporto mais interessante para ele. Coerente é a rota do barco que cujo comandante por mais que deseje parar em Lisboa, segue para Amsterdam porque a rota o exigia. Coerente é o casal que traçou um plano de vida a dois e nenhum se desvia deste projeto conjunto. Coerente o pregador que jurou que iria junto e por nada neste mundo mudou de igreja ou de grupo religioso.
Elas doem, tanto uma como a outra, mas a dor da incoerência causa mais estragos na alma da pessoa. Mentir sabendo que mentimos, expor na vitrine um produto falso, mas que vende, dar a palavra e não cumprir é coisa que repercute vida afora.
Por isso se alguém pretende cultivar alguma espiritualidade comece pela palavra dada. Dizer e fazer, prometer e cumprir mesmo que doa é o começo da santidade. Deus é coerente! O pai da mentira é o diabo! Nada de bom pode vir de um sim que não é sim e de um não que não é não. Foi Jesus quem disse que tal comportamento do céu é que não vem!(Mt 5, 33-37)

Pe. Zezinho scj