14 de abr de 2012

INSTRUÇÕES DE AEROPORTO

Algumas pessoas são confiáveis como vozes de aeroporto. Isto é: não são. O que elas dizem não merece crédito. Espere por outras instruções, porque as primeiras raramente valem.
Há o lado ruim e o lado bom. Pelo que há de bom acho que devo agradecer quem dá aquelas instruções atabalhoadas porque graças a elas tenho caminhado cerca de dois quilômetros por vôo, e de mala na mão. Pratico, assim, um sadio halterofilismo, além de andar a quilometragem necessária para meu diabetes e minha pressão alta. Meu médico também agradece. Quem viajar de avião com frequência semanal e embarcar no aeroporto de Congonhas certamente não levará vida sedentária. Infalivelmente a porta indicada não será a porta de embarque... Aos portadores de algum limite oferecem uma cadeira de rodas.  E isto compensa em parte pelo incômodo causado aos demais. Ao menos alguém recebe os devidos cuidados. O resto, que se cuide.
O que isso tem a ver com religião? É que as pessoas dependem daquelas vozes de aeroporto para subir aos céus num avião e não poucas vezes são obrigadas a correr como baratas tontas de um lado para o outro por falta de melhores instruções. As companhias culpam a Infraero, a Infraero culpa o atraso das companhias e ninguém assume a culpa. Cai um avião e morrem 199 passageiros e ninguém assume a culpa. Reina a desinformação.
Não é muito diferente com as igrejas que chamam o povo para passar pelos seus templos se quer ir para o céu. Lá, supostamente os fiéis receberão as instruções. Mas também lá, a depender do pregador e da linha vigente na igreja ou no templo, como baratas tontas os fiéis não sabem o que é certo ou errado porque um pregador diz uma coisa e outro diz outra; um interpreta de um jeito de outro de outro. É outro empurra-empurra, outra pra-lá-pra-cá que cansa o fiel. Basta ligar o rádio e a televisão para ver o que as igrejas ensinam em nome do cristianismo. Pode e não pode, não pode e pode, Jesus falou, Jesus mandou, Jesus me disse, Jesus não quer, Jesus quer...  Os textos caem como luva para os propósitos daquela igreja ou daquele movimento. Nunca se sabe qual a porta de acesso a Jesus porque cada pregador tem uma chave!
Estamos muito longe da unidade no essencial, como parece que os porta-vozes das companhias aéreas e a Infraero parecem não chegar a um acordo. Mais de cinquenta vezes - e não exagero - fiz o trajeto do portão 12 para o portão 17 ou 21, porque a primeira instrução não valia.
As igrejas parece padecerem do mesmo problema. Não há unidade na pregação. Depois fica difícil explicar ao fiel que seguiu aquele pregador que São Paulo não disse aquilo daquele jeito, que isto é pecado e aquilo não é e que, quando alguém peca não enfia mais um espinho na cabeça de Jesus, nem que orar em línguas é sinal de maturidade na fé. Se fosse assim teríamos que dizer que os santos, as santas, os papas e os cardeais e bispos dos últimos séculos eram todos imaturos porque nenhum deles orou em línguas...   Alguém inventa e depois não há quem tire a idéia da cabeça do fiel mal instruído pela voz não se sabe de quem... Talvez seja hora de voltarmos à catequese e abandonarmos o achismo que tomou conta de alguns púlpitos e mídias religiosas...
Pe. Zezinho scj