30 de jun de 2011

PÚLPITOS E HELICÓPTEROS

No curto espaço de dois meses três helicópteros caíram porque pilotados por pilotos não habilitados. Segundo relatos, não tinham brevês, não conheciam o aparelho, sabiam mais ou menos, mas arriscaram. A paixão pelo vôo foi maior do que a prudência de não assumir um comando para o qual não estavam habilitados. Extrapolaram.

Com enorme freqüência vemos na televisão, ouvimos no rádio e escutamos o relato de pregadores despreparados que assumem situações para as quais não eram as pessoas indicadas. Pregam doutrinas absurdas, ressuscitam erros do passado em nome da piedade popular. Divulgam ensinamentos novos que ninguém da sua igreja poderia assinar em baixo. Lembram o porteiro de hospital que sobe à sala de cirurgia, vale-se de um avental branco e passa por médico e... mata o paciente com intervenção errada. O gosto de parecer médico é tanto que ele não hesita em arriscar à custa do enfermo.

Há mais de 30 anos leciono Prática e Crítica de Comunicação nas Igrejas e me concentro em convencer os alunos a se prepararem para atuar nos templos, para pequenos grupos e para multidões. Nem sempre fui compreendido quando sobe isto alertei este ou aquele aluno; ou quando comentei sobre este ou aquele pregador que, falando a milhões de ouvidos, arrisca divulgar ensinamentos em baixo dos quais nenhum teólogo ou bispo assinaria.

Por conta de textos, falas e letras erradas, o povo começa a cantar letras heréticas, e a divulgar práticas no mínimo confusas, com orações que deixam a desejar em termos de conteúdo e de ortodoxia. Em vão! Não aceitam e não se corrigem! Criam demônios onde não os há, e atribuem a anjos ou demônios o que a Igreja jamais atribuiria. Inventam visões que não podem nunca provar. Mas garantem que Deus lhe mandou dizer aquilo. Apresentam-se como privilegiados que adivinham o futuro. Um ou outro chega a dizer que tem poder de cura... Tem mesmo?

Há 30 anos venho alertando em aula e escritos, para os perigos do marketing não da fé, mas do pregador que, mensageiro que deveria ser, acaba maior do que a mensagem que deveria levar. Há quase 40 anos venho dizendo que ninguém é padre porque canta, mas, se cantar, canta porque é padre. Vivo lembrando dos perigos da proeminência do pregador católico ou evangélico que acaba maior do que o púlpito, ou do que o altar, porque os holofotes que deveriam iluminar o templo se concentram mais nele do que na assembléia.

Começo a ser compreendido, porque os exageros dos mais diversos pregadores das mais diversas igrejas pedem uma reflexão sobre tais extrapolações. Pregador é porta-voz e não pode em absoluto fazer ou dizer o que acha certo, sem poder provar em que texto, documento ou livro oficial está o que ele fez ou disse. O individualismo e o personalismo tem levado muitos a falar sem citar as fontes.

Lembram os pilotos de helicópteros que assumem uma aeronave cujos detalhes importantes não conheciam. Acontece que a pregação também tem detalhes importantes. Quando o pregador não conhece estes detalhes corre o risco de derrubar o púlpito. Isto se corrige com mais estudo e mais leituras. E há pregadores e cantores da fé que simplesmente ignoram os livros. Acham que é tudo um mero detalhe. Pois é este mero detalhe que derruba helicópteros e aviões.

Algumas quedas são culpa dos mecânicos; outras, do piloto que não sabia o suficiente para agarrar aquele manche ou apertar aqueles botões...Ignorou quem sabia e assumiu um comando par o qual não tinha preparo! Os cursos existem, mas muitos nunca o freqüentaram nem pensam em fazê-lo. Foi o que fez um dos pilotos que morreram. Achou que não precisava. Descobrira tudo sozinho... No caso de semelhantes pregadores, para que cursos de exegese se Deus lhes diz o que devem dizer?...

                                                                                                                 Pe Zezinho scj