30 de jun de 2011

ANUNCIADORES DE UM DEUS INCOMUM

Eles anunciam que Deus existe e esteve aqui na Palestina. São pregadores cristãos das mais diversas igrejas, congregações e assembléias que se proclamam cristãs. Anunciam um Deus muito diferente dos deuses ou do Deus aceito pela maioria das outras religiões, que por sua vez também tiveram e têm dificuldade enorme de explicar suas teogonias e parusias: origens e manifestações dos deuses .

A verdade é que nem Deus nem suas teogonias são explicáveis apenas à luz da razão. E outra verdade é que a razão também não explica tudo o que inquieta a mente humana.

Estamos no mato sem cachorro... Nem a fé explica tudo, nem o sentimento nem a razão, nem a ciência têm explicação para tudo. Então, adotamos as nossas explicações parciais, escudados ou no sentimento, ou na intuição, ou na razão e as canonizamos. Achamos que o caminho do outro leva, mas não chega. E decretamos que o nosso é mais caminho, e se não chega hoje, chegará um dia... É o discurso latente nos escritos e artigos que se lê há séculos.
***
Segundo os pregadores cristãos, o grande ungido, que se chamava Jesus e que cruzou as aldeias, estradas e praias da Palestina era o próprio Deus!
Ensinam que Deus é um só, mas é trindade de pessoas e que a segunda pessoa da Trindade, o Filho, aqui esteve e assumiu a natureza humana. Era uma só pessoa, mas tinha duas naturezas: a divina e a humana. Nasceu em Nazaré da Galiléia e morreu em Jerusalém.

Isto! Aquele Galileu carpinteiro que se chamava Jesus, era o próprio Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo e Ele era o Filho. O Pai agiu com ele, mas não foi visível. O Espírito Santo deu sinais e agiu com Ele, mas não se fez visível.

É o que os cristãos anunciam. É uma fé difícil para quem a leva a sério. Não nos admiremos se há pessoas que a rejeitam. Pode ser fácil para milhões de crentes, mas não é para os não crentes, ou para crentes não cristãos.

Uma coisa é proclamar isto superficialmente, com palmas e aplausos para o nosso Deus que se encarnou, garantir que ele tem poder e age no mundo e outra, sustentar esta fé perante pessoas inteligentes e críticas, ou diante dos perseguidores de religiões e igrejas estranhas. Alguns toleram, outros não estão nem aí e ainda outros, como Christopher Hitchens e Richard Dawson a combatem com veemência. Não conseguem ficar quietos, diante deste estranho Deus que se faz humano, nasce de uma virgem e morre impotente numa cruz. Se outros podem anunciá-lo eles podem denunciá-lo. E é o que fazem.

Por que razão nos admirarmos se alguém duvida e decide crer em Deus de outra forma? Não estamos também nós crendo em Deus de outra forma? Bilhões não crêem num Deus em três pessoas. Por conseguinte, não vêem em Jesus ninguém mais além de um profeta honesto e bom, perseguido e crucificado.

Nossa fé escandaliza ateus e outras religiões que dizem que um Deus como este não faz sentido: Deus não se rebaixaria a este ponto de se tornar humano. Assim, não aceitam a fé cristã.
Jesus para eles pode até ter sido um homem ungido, mas Deus, nunca! Aceitam o jesuismo, mas não o cristianismo. Jesus humano, bom e mártir, sim. Jesus Deus, não!

Mas é o que todos os dias padres, pastores, seminaristas, religiosas, leigos, pregadores, diáconos, cantores e um exército de catequistas e anunciadores da existência de Deus ensinam. Ele era o próprio e único Deus que é três pessoas. Muitos dos que o anunciam nem sequer se dão conta de que estão anunciando o único Deus que há. Não são poucos os que se benzem ou falam como se estivessem diante de três deuses. Ainda há o padre ou diácono ou pastor que em plena televisão falam de Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo, ao invés de falar de Deus: Pai, Filho, Espírito Santo. O detalhe os trai!

Dialogar com um mundo que não está disposto nem mesmo a conversar sobre isso e com jornalistas que, às vezes, maliciosamente reportam esta fé com estudada ironia, eis o desafio para um coração que diz que, em se tratando de Deus isto é perfeitamente possível. Se Deus pode tudo, então pode isso. Se não pode então não pode isso.
Uma entrevistadora, anos atrás perguntava a um sacerdote católico se Deus poderia se, manifestar em forma de cabra, boi ou cobra, que são suas criaturas, já que se manifestou em forma de homem.
A resposta do sacerdote mestre e teólogo foi serena. O finito e impotente nunca poderia se tornar infinito, mas o infinito e todo poderoso pode assumir a forma de finito. Se ele pode tudo ele pode parecer menor aos nossos olhos. Nós é que jamais conseguiríamos nem mesmo parecer infinitos.
Insatisfeita ela disse que o padre tergivezara, vale dizer: ziguezagueara pelo assunto sem responder. E ele disse claramente: - Se uma cabra, um boi o uma cobra poderiam ser deuses? Não. Se Deus poderia manifestar sua presença na forma de vento, línguas de fogo, vozes, animais ou outros sinais? Poderia. No caso do ser humano Jesus nós afirmamos que ele não apenas manifestou presença: foi presença!
A entrevistadora disse com um sorriso no canto dos lábios:
- É preciso coragem para afirmar um coisa dessas.
E o teólogo padre respondeu:
- E não é preciso coragem alguma para rir dessa fé pelo canto esquerdo da boca. Eu não estou rindo do seu jornalismo e das suas convicções. Então, além de coragem eu tenho respeito. Foi isso que Deus veio ensinar ao mundo que disso andava esquecido...

Não provou nada, mas estabeleceu fronteiras entre quem crê e quem o questiona e entre quem não crê e o crente que dele discorda. Nenhum dos lados pode ter tamanha certeza de que Deus faria ou não faria kênosis: isto é: descer até sua criação. Simplesmente não sabemos o suficiente sobre o Deus que afirmamos ou negamos.
***
Um jornalista irônico que, ao invés de me entrevistar, me deu duas estocadas sobre minha fé cristã, perguntando como uma pessoa aparentemente estudada e culta como eu poderia enveredar por este caminho absurdo.
Respondi perguntando como um jornalista, supostamente estudado e competente como ele, acabara enveredando pelo caminho da notícia contada apenas do seu jeito, ao invés de ouvir o ponto de vista do entrevistado e de tentar achincalhá-lo perante os presentes. Se eu deturpo a idéia de Deus não estaria ele deturpando a idéia de notícia? Traduziria minha idéia ou imporia a dele? Eu estava ali propondo minha crença, mas ele estava impondo sua descrença, enquanto me entrevistava!

Entendo o professor universitário, o estudante, a moça culta, o pregador de outra fé que não aceitam que Deus possa ser um só ser em três pessoas. Entendo quem não aceita que Deus tenha estado aqui em forma humana. Entendo o historiador que me lembra que tais parusias, teogonias e presenças divinas existiram em muitas culturas. Eles falam do ponto de vista de quem não vê a menor possibilidade de Deus ter se tornado humano.




Eles não nos entendem e jamais entenderão. Nem nós mesmos nos entendemos. Se não conseguimos formular a contento nossa idéia de Deus entre nós, muito menos seremos capazes de provar cabalmente quem é Deus e como ele age.

Grandes teólogos, pensadores inteligentíssimos deixaram claro desde os primeiros séculos que uma coisa é nosso discurso sobre Deus e outra realidade é o Deus sobre quem discursamos. Ele é mais. No dizer Karl Bart e também Karl Rahner ele é o totalmente outro. Qualquer comparação claudica. Falar sobre Jesus Deus, humano e divino, Filho eterno já é difícil. Querer provar a um descrente inteligente que assim é fica ainda mais difícil. Podemos citar os livros nos quais acreditamos, mas a razão dele não aceita estas escrituras. Para eles são documentos sem valor. Não aceitam seu conteúdo como prova.

Quando, pois, ouso falar sobre o Coração Sagrado do homem Deus, eu pregador dehoniano, que escolhi acentuar para um mundo sem misericórdia e propenso à vingança ou à indiferença que Deus é compassivo e que o Filho esteve aqui e derramou seu coração sobre os pequenos, os humildes e feridos pela vida já sei que serei contestado. Não vêem Deus da mesma forma e não aceitam esta compaixão como eficaz ou infinita.

Para eles, o Deus que tem poder e não o usa, não é tão bom quanto parece. Se pode tudo, por que não intervém. Vai deixar seus filhos se destruírem e se matarem e eliminarem até agir? Não seria o caso de impedir tanta violência e tanta fome? Se criou a produção não poderia intervir na distribuição dos alimentos?
Não foi ele que por quase quarenta anos deu cesta básica de maná e de codornizes no deserto ao seu povo para que não morresse de fome. Na era dos aviões, por que ele não toca os corações de seus filhos obedientes e ricos para levar o moderno maná de avião lá onde se passa fome? Podia fazer no deserto e não pode hoje? Ou aquilo era apenas linguagem figurativa?
Foi o que ouvi de um químico descrente. Nem adiantou querer responder. Ele entrou no carro e foi embora. Eu saia da rádio América onde pregara sobre o coração compassivo de Jesus.

Os documentos da nossa Igreja deixam claro que Deus não é obrigado a fazer chover de madrugada o moderno maná para um povo que o tem, mas concentra tudo nas mesas de uns poucos a quem nada falta, enquanto a milhões não chega nem mesmo o pão cotidiano.

O mesmo Jesus que dizemos ser Deus e que mandou orar por este pão no Pai Nosso, também nos disse que cometeremos crime se negarmos o que temos a mais ao que nada tem ou não tem o suficiente. A tarefa é nossa.

Por que ele não intervém? Eu gostaria de ter a resposta na ponta da língua, mas não tenho. Receio que este assunto de livre escolha e de dizermos sim ou não à vida e a Deus não está esgotado. Até que ponto Deus nos dá liberdade? Até que ponto ele a retoma? Seria liberdade se não pudéssemos dizer não a Ele e até negar sua existência? O fato de podermos livremente afirmá-la ou negá-la sem sermos imediatamente jogados no inferno pode se ruma prova de que Deus não existe ou que existe e respeita nossas escolhas. Pagaremos nós mesmos o preço delas...

Talvez a falta que Deus faz quando o ignoramos seja a maior prova de que Ele existe. É como o ar que não vemos, mas existe. Não há como negá-lo só porque não o vemos. É quando ele nos falta e quando estrebuchamos na poltrona puxando o que podemos dele pela boca ou pelas narinas, que percebemos o quanto precisávamos dele.

Talvez seja o ato de aceitar seu amor, que para nós, às vezes, parece estranho, por não vir como queríamos, talvez seja esta consciência que nos levará a entender os sentimentos humanos. Onde não há amor há graves lacunas. Nada as preencherá de maneira satisfatória.

Negação de Deus não é o mesmo que ausência dele. Somos nós a negar. Ele pode estar agindo e presente e mesmo assim podemos negar. Teísmo ou ateísmo são escolhas nossas, não de Deus. Não é Deus que nos vira as costas. Somos nós que vamos embora do que não aceitamos. Ou somos nós que aceitamos mas apenas do nosso jeito!

Complicado é pregar e complicado é aceitar Deus. Deve ser por isso que há multidões de estudiosos a afirmar ou negar sua existência, ação e presença neste mundo. E tudo indica que assim será enquanto ser humano for inteligente e rebelde para se perguntar por quê! Deus nunca será do nosso jeito. Nem do nosso, nem dos ateus!


Pe Zezinho scj