24 de mai de 2012

DEUS E OS OUTROS

O avião caiu na densa selva, longe de tudo e de todos.
Morreram o piloto, a tripulação e vinte e cinco passageiros.
Escapou um piedoso crente, famoso pelas suas pregações.
Mais uma vez, sentiu-se escolhido.
Alguma coisa de especial Deus queria dele.
Levara todos os outros e salvara somente a ele.
Dobrou os joelhos, olhou para o céu e começou a louvar;
__Obrigado, Senhor, porque me escolheste dentre todos para viver.
__Obrigado, porque me deste a graça de sair sem nenhum ferimento.
__Obrigado, pelo milagre de estar vivo.
__Obrigado, pelos meus familiares que não sofrerão a minha perda.
__Obrigado, pela comida, pela água e pela chance de sobreviver.
__Obrigado, porque certamente me reservas uma grande missão.
__Eu te prometo que, se chegar são e salvo darei testemunho de Ti.
Pegou um bote salva vidas, as provisões e desceu o rio. Acharia algum lugar.
Remava, lembrando e orando o salmo 40, que serve para essas ocasiões.
Fora escolhido para viver e narrar às maravilhas que Deus faz por quem o ama.
Um galho pontudo acabou com o som da sua prece. Pffffffff. Afundou e perdeu tudo.
Salvou-se, nadando para a margem.
Era noite. Cansado, exausto, com fome, com frio e com medo mudou a sua prece.
__Se era para eu morrer aqui, entre as feras porque me salvaste lá?
Começou a rezar o salmo 22, que serve para essas ocasiões.
Uma voz do céu lhe respondeu:
__Você teve a chance de sepultar os que morreram e de orar por eles.
__Pensou na dor dos seus parentes e não pensou na dor dos deles.
__Ao invés disso, gastou cinco dias a me louvar porque eu o salvei.
__Pensou logo nos sermões que pregaria, com sua incrível história.
__Em nenhum momento, pensou nos outros.
__Você não passou no teste de solidariedade. Ignorou a dor dos outros.
__Não soube se fazer eleito.
Arrependido, o eleito rezou o versículo 4 do salmo 41, e o salmo 51 do começo ao fim.
Pediu mais uma chance. Não, ele não esqueceria a lição que Deus lhe dera!
De manhã conseguiu dois troncos e boiou até um vilarejo, onde se refez.
Viveu mais 40 anos, orando mais pelos outros do que por si mesmo.
Nunca mais falou de si. O tempo todo falava do que Deus fez pelos seus santos.
Nunca mais se apresentou como mais eleito, mais escolhido, acima dos outros.
Escreveu até uma Vida dos Santos que foi muito elogiada.
Morreu querido e admirado por sempre dar chance aos outros.
No seu túmulo, a seu pedido, a lápide dizia:
       "Tornou-se cristão no dia em que aprendeu
         que o Deus que o amava, também amava os outros."

Pe Zezinho scj